“Itália bela, mostre-se gentil e os filhos seus não a abandonarão, senão,
vão todos para o Brasil, e não se lembrarão de retornar.
Aqui mesmo ter-se-ia no que trabalhar sem ser preciso para a América emigrar.
O século presente já nos deixa, o mil e novecentos se aproxima.
A fome está estampada em nossa cara e para cura-la remédio não há.
A todo momento se ouve dizer: eu vou lá, onde existe a colheita do café”
INTRODUÇÃO: Traçar um perfil fidedigno da realidade envolvendo a chegada dos italianos ao Brasil, particularmente São Paulo, significa enveredar por um universo que mistura interesses políticos nos dois países, dados culturais e, principalmente, muito – mas muito mesmo – sofrimento e força de vontade por parte de gente pouco ou nada estudada, mas dotada de profundas raízes culturais, raízes essas que serviram de anteparo ante as dificuldades que provocaram a diáspora e a adaptação à terra nova.
Do outro lado do Atlântico, expandia-se a cultura do café, mas eclodia o movimento anti-escravagista, e os barões do café precisavam de mão de obra barata para substituir os escravos. A decisão por importar contingentes europeus, no caso específico, os italianos, foi tomada a contra-gosto, ante a iminente libertação dos escravos.
AINDA NA ITALIA: 1850. A miséria assola a Itália, a cultura ainda é meramente oral para a esmagadora maioria da população. Rudimentos de evolução na agropecuária, com a implantação de técnicas mais modernas, começam a surgir no norte, especialmente na Lombardia e Veneto. Criou-se o mito do lombardo e veneto dócil e trabalhador – uma visão romântica longe da realidade – trata-se, em verdade, de comunidades em melhores condições econômicas, graças ao solo favorável e o apego ao cultivo da terra na condição de meeiros. Se, por um lado era gente extremamente laboriosa, por outro, os frutos dessa força, economizados, davam ao à mão de obra excedente com as novas técnicas, uma situação financeira mais favorável, permitindo pagar as passagens para se aventurar rumo à América.
A Pátria expulsora: Por doloroso que seja afirmar, por cinqüenta anos seguidos, de 1870 a 1920 as levas constantes de italianos do norte da Itália criaram a riqueza do estado de S.Paulo – Brasil. Era gente que partia com suas economias resultantes de trabalho árduo, expulsas pela proletarização irreversível…
O segmento miserável da população, mesmo antes de se dirigir ao Novo Mundo já procurava fugir à pobreza através de trabalho em condições horríveis em países visinhos mais avançados.Assim, os homens partiam para a França, Alemanha, Suíça,etc, nas épocas de plantio e colheita, deixando as crianças aos cuidados das mulheres idosas, já que as jovens também seguiam em busca de trabalho como domésticas, cozinheiras, bordadeiras, colhedoras de frutos. Trabalho árduo por uns trocados, sem esmorecer, que não havia outra opção.Se ao norte as condições eram difíceis, no Abruzzi, na Campânia e Calábria , do centro para o sul, a precariedade atingia níveis lastimáveis.
As pessoas viviam em vilarejos onde a “pelagra”se alastrava, junto com a “tuberculose” e outras moléstias dizimantes. Suas habitações, em ruelas que mal davam para uma pessoa passar, eram casebres baixos, cheios de frestas, caindo aos pedaços, que deixavam transparecer, pelos buracos usados como janelas e pelas fissuras dos muros, cenas tristes; no interior, poucos cômodos imundos, onde se chegava por escadas precárias. As paredes, revestidas de pó secular, enegrecidas e úmidas pelas chuvas que desciam livremente do teto, infiltrando-se entre as pedras; o chão do térreo era de terra ou pedras mal ajustadas, aqui e ali arrebentadas ou incompletas; o plano superior dos sobrados era formado por tabuleiros bamboleantes, nas janelas não haviam batentes, eram tapadas por vidros ou folhas de papel. Os únicos móveis eram ,um ou dois leitos sobre cavaletes, cobertos de palha ou papel, um baú para os pertences e os utensílios para cozinha e agricultura. Alguns santos vermelhos ou azuis, algumas vezes um calendário, o número de cômodos era variável, mas sempre inferior às necessidades da família. Uma coabitação forçada. Os filhos, até atingirem a idade para o casamento, dormiam no mesmo quarto dos pais e muitas vezes no próprio leito, por isso os mistérios da geração deixavam muito cedo de ser mistérios.
As moças dormiam com os pais ou alguma velha da casa, ou mesmo com um irmão menor. As famílias em melhores condições colocavam sobre a palha do leito um colchão de lã ou pluma. O chamado banheiro não existia, e pode-se avaliar a imundície e o alto grau de incidência de doenças. Pensa-se como essa gente fazia suas necessidades fisiológicas e chega-se ao pasmo e a não entender, por ora, como essa gente foi a última leva a deixar a Itália, como veremos mais adiante.E pensar que havia uma categoria ainda mais baixa, a dos Braccianti (braçais), que circulavam pelos vilarejos à procura de uma ocupação diária que lhes provesse o sustento.
As roupas, tanto de homens como das mulheres, eram grosseiras, feitas em geral de algodão ou de lã mista. No inverno, os homens usavam capotes pesados de lã e as mulheres usavam xales, também de lã. A maioria caminhava e trabalhava descalça; só no inverno cobriam os pés com toscos tamancos, feitos com sola de madeira e, nas regiões mais frias, forrados com uma lã qualquer. Toda a roupa era praticamente tecida em casa, desde suas meias de lã ou de algodão cru, até os véus usados pelas mulheres na igreja aos domingos. Seus sapatos e tamancos também eram de confecção caseira.
Em verdade, as condições de vida dos pequenos proprietários, arrendatários e meeiros em nada ou quase nada diferia das condições dos Braccianti. Embora alguns possuíssem um pequeno pedaço de terra ou certo capital para arrendar uma área de cultivo, não estavam automaticamente excluídos da condição de Braccianti ou de qualquer outra categoria durante parte do ano. Muitos eram obrigados a trabalhar nessas condições em outras propriedades, e rara era a família de pequenos proprietários ou meeiros que não tinha filhos trabalhando como Braccianti nas grandes fazendas, ou filhas operárias nas minúsculas indústrias da vizinhança.
Entre os pequenos proprietários agricultores, tanto nas montanhas como em outros lugares, o hábito de dividir a terra quando os filhos se casavam começara há muito tempo. E, dentre os vários problemas que a pequena propriedade defrontou nesse período, este é um dos principais motivos da divisão ou enfraquecimento.
Belluno, Treviso, Udine e Vicenza,as grandes áreas expulsoras do Veneto, até 1885, constituídas predominantemente de montanhas e colinas, apresentavam um proprietário para cada dois habitantes em Udine, um para cada três em Belluno; um para cada quatro em Vicenza, portanto, propriedades insuficientes para manterem uma família, ainda menor do que as aqui descritas.
Com o fim da escravidão no Brasil, e os fazendeiros do Oeste paulista e Vale do Paraíba procurando urgentemente mais e mais mão de obra barata., apesar de notícias inquietantes que chegavam do Brasil, dando conta das más condições de vida dos italianos no Brasil
Nas famílias dos Braccianti, pequenas a refeição era a polenta e batatas, numa só refeição diária.Quando os filhos se casavam , abandonavam a casa paterna levando tudo o que podiam para montar a própria moradia. Onde não havia mais o que dividir, a família era obrigada a se separar, tomando, no passo seguinte, o destino da América.
Claro que apenas a minoria enriqueceu- isso é comum a imigrantes de todas as partes – mas o importante é a verdadeira absorção e simbiose havidas entre brasileiros e italianos, e de italianos com outros povos imigrantes. Tal aspecto é de se considerar, para entender porque os italianos “se deram bem no Brasil”.